Quando
a história contada pelo diretor estreante Ryan Coogler começa lá pelos seus
finalmentes, mostrando uma filmagem real de um episódio que não
figura na lista de atitudes humanas da humanidade, é o seu modo de
afirmar em letras maiúsculas que essa é sim uma história baseada
em fatos reais. Com os dois pés fincados na busca por simplicidade
narrativa.
Uma
busca rápida na internet já apresenta informações o bastante
sobre o incidente ocorrido em Oakland, nas proximidades de San Francisco, no Reveillon 2008/2009 na Estação Fruitvale, e que
desencadeou violentos protestos nos EUA.
Há um aspecto romanceado na história do afro-americano de 22 anos Oscar Grant III (Michael B. Jordan, (de Poder Sem Limites, e do vindouro reboot do Quarteto Fantástico), afinal, existe uma espécie de busca por redenção que acompanha sua trágica história, e a qual um roteirista em geral é impelido a aproveitar.
No
roteiro escrito pelo próprio diretor, o protagonista não quer
mais vender drogas pra sustentar a família, e os episódios
inglórios do seu passado são catalisador pra isso.
Não
vou mentir pra vocês.
Esse
tipo de sinopse costuma ser motivo pra eu perder por completo o
interesse em assistir um filme. Só que um dos benefícios de tentar
não saber nem a sinopse dos filmes é a possibilidade de se
surpreender quando um roteiro consegue ir além do resumo.
É
tudo sobre saber contar uma história, e a escolha de ser simples não representa problema nenhum, ainda que a rotina seja complicar
pra camuflar eventuais falhas.
Fruitvale
Station não tem esse recurso à disposição. Isso porque é
completamente visível ao espectador a intenção das cenas assim que
elas surgem na tela, e ninguém fica tentando enganar ninguém
fazendo parecer que os rumos vão repentinamente mudar.
Quem
sabe por isso o aspecto quase fabular da sequência do cachorro seja
algo tão evidente (e quem sabe desnecessário) no contexto da trama.
O
significado não é o que o público acha que pode ser. É exatamente
o que o público viu que é.
Mesmo
assim, acho que tudo que eu falei ainda não soa a favor do filme.
Ainda
que seja.
Diferente
do que seria usual, a condução do roteiro não oferece pistas, ou possibilidade de
mudança.
O
trajeto de Oscar Grant III não vai desmentir o seu começo, ainda
que não se restrinja ao que os palpites de ver trailer propiciam.
O
diferencial está na força das atuações, e na intensidade da
construção dramática.
O protagonista é vítima de seus erros, mas principalmente, tem visto as pessoas ao seu redor pagando caro por isso, e chega a um ponto em que suas mentiras de que “as coisas estão sob controle” podem até convencer os outros, mas não convencem a ele mesmo.
O
relato agridoce estabelece nele o olhar de mártir, enquanto que sua
esposa Sophine (muito bem interpretada pela Melonie Diaz), sua mãe Wanda (uma BAITA atuação da Octavia Spencer), e sua filha Tatiana (Ariana Neal) exercem papel determinante no seu papel de
mudança, afinal o jovem traficante, de passado com envolvimento com gangues, percebeu que já passou da hora de largar mão de fazer essas cagadas.
O filme assim é equilibrado ao apresentar um protagonista falho, em busca de redenção não pela simples vontade de vencer, ou etc.
O filme assim é equilibrado ao apresentar um protagonista falho, em busca de redenção não pela simples vontade de vencer, ou etc.
É
aquela história: Oscar não vê problemas em se ferrar pelas suas
burradas, mas não existe orgulho nenhum em reafirmar o que todos
pensam a seu respeito pelo que fez no passado.
O
diretor não se incomoda em mostrar seu protagonista um cara
diretamente responsável pela sua mediocridade, e aproveita isso pra
ir levando a uma crescente de envolvimento com o que ele planeja, que
é que nem assistir aquele bom filme no qual se sabe que o herói
não ganha.
Não
importa quantas vezes se assista, é impossível não torcer ao menos
um pouco pra que ele saia vencedor.
Dessas
emoções simples, e até corriqueiras, o filme se sustenta e se
fortalece, numa espécie de relato verídico do dia-a-dia, que nem
pela simplicidade com que é contado perde força.
Em uma
temporada na qual o filme em preto e branco de atuações quase
documentais Nebraska foi um dos melhores longa-metragens
lançados, “Fruitvale Station: A Última Estação” fez por merecer a atenção que recebeu, até pra lembrar que cinema se faz
com mais do que hype.
Fruitvale
Station: A Última Estação. Recomendado para: transformar em sétima arte o que costuma virar apenas estatística.
Fruitvale
Station: A Última Estação
(Fruitvale
Station)
Direção: Ryan Coogler
Duração: 85 minutos
Ano
de produção: 2013
Gênero:
DramaSign up here with your email
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