Sicario: Terra de Ninguém (2015)



"A palavra Sicario surgiu para definir os fanáticos de Jerusalém.
Assassinos que caçaram os romanos invasores de suas terras.
No México, Sicario significa franco-atirador."
É com essa breve informação que se inicia o novo trabalho do diretor canadense Denis Villeneuve, e que já deixa claro que, mais do que um filme policial, esse é um filme que não seria estranho chamar de um filme de guerra.
No entanto, são muitos os flertes do filme com o gênero western, com seus personagens de moral dúbia, e interesses que vão além de salvar o dia.



"Sicario: Terra de Ninguém" é no fim das contas uma história daquelas, de agentes caçando chefões do narcotráfico, ao menos no que a sinopse nos diz.
No entanto, a quantidade de corpos mutilados, e a própria forma como é narrada a história lembram demais os filmes de ocupação estadunidense no Iraque, ou qualquer outro país no qual tentem implantar a paz a la americana, ou seja, na base dos projeteis disparados, em prol de algum interesse a mais.
"Sicario" se enquadra tanto nisso que um dos principais elementos do roteiro de Taylor Sheridan se encontra diretamente associado ao tipo de aliança que os agentes norte-americanos estão dispostos a realizar pra atingir fins que, se não são a legítima paz vendida nos jornais, ao menos é o bastante pra que as notícias tenham que mudar de assunto procurando algum mais chocante.
Na trama, a agente do FBI Kate Macer (Emily Blunt) viu à sua frente um pouco do pior que o ser humano é capaz de perpetrar, e em virtude disso está decidida a seguir em uma missão de nenhuma informação disponível liderada pelo personagem de Josh Brolin.
Enquanto eles rumam pro México, deixando ela cada vez mais às cegas sobre o que ela tá fazendo, são acompanhados pelo coadjuvante que ofusca a protagonista, interpretado pelo Benicio Del Toro.
O veterano ator não possui na descrição de seu personagem, ou nas cenas das quais participa nenhum grande momento pra chorar ou gritar, ou espernear, ou mesmo pra se encher de maquiagem e impressionar jurado de premiação, mas constrói pra si um agente enigmático, e com camadas a mais que ele não precisa nem descrever pra parecer uma pessoa real. O personagem que ele interpreta é soturno e de poucas palavras, e ainda assim não deixa espaço pra lembrar da apática protagonista.




Emily Blunt traz estampado o esforço de tornar a dedicada e correta agente Kate em figura importante na trama, porém sua contraparte no filme carece de carisma, e é simplesmente empurrada de um lado a outro pelo enredo sem nunca ser capaz de tomar atitude e levar a situação pro que considera o ético a fazer. Apenas sobra esforço.
Enquanto isso, Josh Brolin, apesar de menos marcante em atuação do que o Benicio Del Toro, também faz de sua carranca cafajeste um recurso a mais pra incrementar seu personagem, sendo uma das poucas fontes de informação de Kate, ainda que na medida do possível prefira guardar pra si.
No filme, apenas os que seguem as regras são o que parecem, e todos os outros possuem algum interesse escuso na jogada, e que serve de propulsor na investida contra os chefões do crime na cidade de Juarez, México, onde a trama se passa.
Afinal, por que chamar uma agente do FBI pra uma operação da qual ela obviamente discorda, e pra qual eles julgam que ela não estaria preparada?



Denis Villeneuve, diretor do elogiadíssimo "Incêndios" e do intenso "Os Suspeitos" relata isso em cima de um roteiro que preza principalmente pelo realismo, em detalhes mínimos e na cadência de ações que por mais que envolvam tiroteios nunca viram o carnaval de câmera lenta e atos heróicos.
Difícil até saber se a própria protagonista está realmente do lado dos "heróis".
O realismo explorado pelo cineasta cobra um preço quando a falta de carisma de sua personagem principal não faz se importar muito com o destino dela em si, mas sim da operação, e dos porquês de estar ocorrendo. Ao escolher essa abordagem em que a personalidade dela já está plenamente definida desde o início, e é de alguém que por mais que tente vai ficar pra escanteio no rumo da história, o diretor abre mão de desenvolver um enredo de tensão baseada nos personagens, tal qual ocorreu em "Os Suspeitos".
No entanto, várias são as sequências que funcionam muito bem apesar de contar com a personagem de Blunt apenas fazendo coro na plateia. Toda a mobilização em meio ao engarrafamento, e o ato final são provas da força do longa-metragem, em que toda a preparação e angustiante espera pelo pressionar do gatilho se fazem interessantes, e não deixam que o desenrolar fique morno.


Tanto na criação de cenas fortes e impactantes em sua sutileza, ou em momentos isolados, o que seria apenas mediano se torna um bom filme de ação, com um elenco de atuações consistentes que ainda conta com Daniel Kaluuya e Joe Bernthal em papéis importantes.
Fosse possível explorar melhor essas atuações através de sequências em que a escalada rumo ao desfecho da operação ganhasse urgência e maior potencial dramático, "Sicario: Terra de Ninguém" seria mais do que o bom filme de combate ao tráfico, de fotografia, edição e demais aspectos técnicos bem feitos, mas que faz de sua personagem principal coadjuvante em sua própria história.
Com certeza seria mais um da lista de filmes de ação que roubaram a cena no prêmio principal do Oscar.



Quanto vale:


Sicario: Terra de Ninguém. Recomendado para: curtir mais um bom faroeste moderno.

Sicario: Terra de Ninguém
(Sicario)
Direção: Denis Villeneuve
Duração: 121 minutos
Ano de produção: 2015
Gênero: Ação/Policial



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