Era uma vez na Itália... Sergio Corbucci


Existem situações que vale aquele questionamento: “E se?” Exemplo: E se Jimi Hendrix nunca tivesse pegado pela primeira vez uma guitarra? E se Albert Einstein não tivesse elaborado a Teoria da Relatividade? E se Peter Parker não fosse picado por uma aranha radioativa?

A mesma pergunta vale para o western spaghetti: E se Sergio Leone e o Sergio Corbucci nunca tivessem assistido ao filme Yojimbo, grande obra do Akira Kurosawa?

Yojimbo, sátira lançada em 1961, é uma história centrada no Japão feudal. A narrativa, com alguns requintes de humor, fala sobre um samurai que chegou a uma pequena cidade onde duas quadrilhas rivais mandavam e desmandavam. Com muita perspicácia, o referido samurai implantou a discórdia entre as quadrilhas, fazendo assim com que uma trucidasse a outra.

Sergio Leone, cineasta italiano, aproveitou o mesmo argumento e assim surgiu o filme Por um punhado de dólares (1964), considerado por muitos o tiro inicial do chamado western spaghetti, aquele western com doses generosas de violência, algumas pitadas de cinismo e sangue falso a gosto, um tanto quanto diferente do faroeste servido em solo norte-americano.


A semelhança era tão evidente que os roteiristas do filme original, Akira Kurosawa e Ryuzo Kikushima, chegaram a processar Sergio Leone.

Enquanto isso, em 1966, Corbucci lançou Django, já comentado em parcas linhas aqui nesse blogue. Porém a influência nipônica em Django foi mais sutil que a do outro Sergio.

Corbucci aproveitou apenas a ideia do estrangeiro que, com cara de pouquíssimos amigos e ávido para fazer muitos inimigos, visita uma pequena cidade em meio a conflitos.

Mas se nos anos 60 os italianos se inspiraram nos japoneses, nos anos 80 foi a vez dos orientais beberem em fontes ocidentais. Vocês lembram do Jaspion, aquela série de TV que era exibida na extinta emissora Manchete? Pois é, com espalhafatosos efeitos especiais que poderiam ser utilizados como ornamentos de uma escola de samba sem dinheiro até para comprar isopor, o Jaspion, em um dos episódios, teve que enfrentar Guila, o exterminador do universo. 

O referido “exterminador” nada mais era do que um cruel assassino que, assim como Django, arrastava um caixão. Tudo isso sob uma trilha sonora marcada por violões no melhor estilo “mariachi mexicanos”.


Bem, deixando de lado o herói japonês e voltando para o diretor italiano. Diz a lenda que, em 1959, Corbucci chegou a encontrar Leone em um mesmo set de filmagem. Nessa oportunidade, o segundo co-dirigia Os Último Dias de Pompeia, enquanto Corbucci atuava como assistente de direção.

Sergio Corbucci iniciou a sua carreira como crítico de cinema. Cansado de dizer “como os filmes deveriam ser feitos”, ele então resolveu fazê-los. Assim ele passou a atuar como assistente de direção de Roberto Rosselini, figura importante do chamado Neorrealismo Italiano e que dirigiu o cultuado Roma cidade aberta. Já nos anos 50, Corbucci passou a dirigir as suas primeiras produções, mas o cara adquiriu notoriedade quando teve a feliz ideia de colocar Franco Nero arrastando um caixão.

A chamada trilogia dos dólares dirigida por Leone pode até ser a santíssima trindade do western spaghetti, mas é inegável a alegação de que o Django de Corbucci também apontou novos horizontes. Até o fato do protagonista aparecer a pé, sem um cavalo, companheiro inseparável dos cowboys, já sinalizava algo novo no ar. 

O sucesso avassalador desse filme gerou ao longo dos anos inúmeras sequências não oficiais, tais como Django - O Bastardo, Django atira primeiro, Django isso... Django aquilo, chegando até ao mais recente Django Livre.

O Grande Silêncio
Depois do bem sucedido longa-metragem de 1966, Sergio Corbucci dirigiu outros westerns de respeito, tais como O Grande Silêncio (1966) e o Vamos a matar, companheiros (1970). Durante os anos 70 e 80, a munição dos westerns spaghetti gradativamente chegou ao fim e Sergio Corbucci investiu em outros gêneros.


O cineasta faleceu em 1990. Geralmente o outro Sergio, o Leone, é o mais reverenciado, mas o Corbucci, o pai do Django, também merece um lugar ao sol. 

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3 comentários

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Anónimo
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23 de janeiro de 2013 às 12:47 delete

Acabei de assistir ao O Grande Silêncio... Achei bem legal.

Falando em Corbucci e Leone, eu tenho curiosidade em relação aos trabalhos deles antes dos western. Geralmente eram aquelas aventuras B estilo "Hércules, gladiadores e afins..."

Thiago

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Anónimo
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23 de janeiro de 2013 às 14:05 delete

Existe um filme B chamado "Hércules Unchained". Sei que é italiano, mas não sei se é de algum desses Sergios.

Isadora

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23 de janeiro de 2013 às 17:20 delete

Oi Isadora...

A direção do Hercules uncheined ficou a cargo do Pietro Francisci

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