Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (2014)



Quando o personagem principal de "Birdman" menciona que a peça na qual ele está trabalhando está de algum modo se tornando uma versão zoada e bizarrona da vida dele, o filme que já era uma esperta revisita da nossa realidade, apenas está aproveitando mais uma oportunidade pra se afirmar um olhar interessante disso tudo que chamamos de cultura pop.



Alguns poderiam chamá-lo de paródia, mas isso parece um tanto inadequado em se tratando de um filme que mira sem receio todo mundo: desde críticos, até atores, e inclusive o público, ou a forma que o mercado de entretenimento se posiciona pra extrair o máximo de cada nova tendência, na maior parte das vezes se fingindo ser arte se isso tiver um público-alvo disposto a pagar bem por isso e esgotar bilheterias.
Mas não me entendam mal.
Eu também consumo cinema blockbuster, do mesmo modo que produções tão canhestras e fuleiras que requerem outro patamar abaixo do homemade, além de filmes repletos de diálogos hediondamente arquitetados pra levar à fervura cerebral.
Ou seja: "Birdman, ou a Inesperada Virtude da Ignorância" também direciona sua metralhadora de acidez crítica pra mim, do mesmo modo que todos nós que de alguma forma fazemos parte do processo de formação do atual momento do cinema e da cultura pop, nem que seja ao escolher determinado filme pra baixar em detrimento de outro.
E isso é algo massa.




Principalmente porque o diretor Alejandro González Iñárritu não está ali somente pra destilar opiniões venenosas a respeito dos rumos da indústria.
"Birdman" ainda é acima de qualquer coisa um filme. Uma obra com méritos próprios enquanto cinema e que emprega os recursos disponíveis pra contar uma história, e nessa história alguns temas abordados vão envolver realmente os arrasa-quarteirões do momento, o modo peculiar de construção de notícias a partir de boatos por parte dos jornalistas da área, e a maneira como o sucesso representa mais do que um objetivo em si.
Por isso que seu longa-metragem não fica tão confortável nos rótulos fáceis, porque na verdade, "Birdman" não é um filme tão fácil quanto se pensa.

Easter eggs invadem as cenas e roubam a atenção em vários momentos, ainda que as menções aOs Vingadores e seus atores estejam longe de marcar tanto quanto a similaridade do filme com a vida do próprio ator Michael Keaton, intérprete do ainda lembrado "Batman" de Tim Burton em 1989 e 1992, e por isso os nomes de atores reais nomeados no roteiro são detalhes que passam rápido. Fica mesmo a sensação de que essa trama está em alguma categoria entre o realismo e a ficção.
Algo muito valioso pro filme, que a partir do momento em que começa prossegue com sua câmera ininterruptamente acompanhando um elenco no qual se deposita grande parte das fichas do diretor.
O próprio Michael Keaton respira a angústia do Riggan Thomson que interpreta, procurando já na base do desespero um último punhado de aplausos e reconhecimento pra não ter que aguentar quieto o êxito de atores em evidência e com mais poder de atrair compradores de ingressos do que ele, e a opinião geral de que ele é apenas "aquele cara daquela franquia de heróis antigona".
Na sombra dele há o Birdman, seu sucesso de outrora, e que é seu cúmplice em vários dos momentos deste filme em plano-sequência (com o auxílio de umas artimanhas), que ainda permite a Keaton protagonizar alguns bons momentos com participação de Emma Stone, Naomi Watts, Andrea Riseborough, Zack Galifianakis, e principalmente o rouba-cenas Edward Norton.
Norton, no papel do ator de métodos não-ortodoxos Mike Shiner é uma excelente adição à história representando uma outra cara desse mundo forrado de gente com fome de visibilidade e capa de jornal.
Shiner, no entanto, vive sua busca de forma completamente diferente do Riggan, o que alimenta uma rivalidade que necessita de cumplicidade, afinal, o sucesso da peça na qual eles trabalham ainda depende do trabalho um do outro.
Alguns efeitos especiais muito esporádicos não mudam os propósitos do filme, ainda que sejam parte de uma mudança de clima que envolve a série de cagadas que rodeiam o protagonista e seu trabalho de redenção da carreira.
No andar da carruagem, o longa-metragem acaba passando por vários pontos em que o drama fica tão caótico a ponto de suas consequências virais acabarem mostrando que os interesses do público certamente estão bem afastados da qualidade da obra, na maioria das vezes em que torna algo motivo de hype.


O que o roteiro, no entanto, não consegue evitar, é uma sensação de vazio em uns quantos diálogos, e o filme com certeza depende e muito deles.
Dessa forma o clima claustrofóbico incrementado pela forma de filmagem, acaba sendo apunhalado por várias falas e algumas sequências que infelizmente não corroboram a ousadia pretendida. Em certos pontos é apenas clichê, quando as piadas físicas fáceis são a escolha pra representar excentricidade, ou quando o drama de personagens secundários é mostrado de maneira superficial e sem relevância pro rumo do enredo.
É nessas horas que "Birdman" se assemelha com aquilo que aparenta acusar nessa indústria de entretenimento milionário, e elementos que nem a própria escolha pelo plano-sequência ficam mais próximas de uma mera roupagem cult, servindo mais pra desviar a atenção de juri de premiação, do que algo que o roteiro necessita ao longo de todos os seus 119 minutos. 
Com isso a trama vai ficando mais arrastada e o longa-metragem forçosamente estiloso apenas como forma de declaração de capacidade.


Enquanto não se confirma todo o tratado artístico aparente, o filme de Iñarritu não deixa de ser eficaz em várias ocasiões nas quais o efeito é maior do que a embalagem pretensiosa.
"Birdman", com seu protagonista durante quase todo o longa-metragem entre realidade e devaneios continua mantendo o viés intimista e quase opressor do mundo de possibilidades pouco otimistas, e derrocada quase certa, enquanto transita em um momento da cultura pop no qual andar sem roupa na rua pode ser marketing melhor que opinião da crítica.



   Quanto vale: 


Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância). Recomendado para: avaliar se Iñarritu está acertando mesmo ou é só hype similar ao demonstrado no filme.

Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância)
(Birdman, or the Unexpected Virtue of Ignorance)
Direção: Alejandro González Iñárritu
Duração: 119 minutos
Ano de produção: 2014
Gênero: Drama/Comédia

A Crítica de outros indicados ao Oscar 2015 NESSE LINK.

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