Django, O Bastardo


Agora que o mundo confere o Django Livre, mais recente trabalho do Quentin Tarantino, basta alguém chutar um balde para dali cair dez blogues tecendo comentários sobre o referido longa-metragem. Diante de tal situação, o Satélite Vertebral também entra na onda, porém aponta as suas antenas para o passado e resgata um outro Django, que nesse caso não recebe a alcunha de Livre, mas sim, de Bastardo. Isso mesmo impoluto leitor, dentre os vários filmes que fazem referência ao personagem icônico interpretado por Franco Nero em 1966, uma dessas produções recebeu o título de Django, O Bastardo.

Já foi comentado aqui no Satélite que o longa-metragem Django, lançado em 1966 e dirigido por Sergio Corbucci, é uma das mais importantes obras concebidas pelo bangue bangue italiano em meados da década de 60 e 70.

Eu, particularmente, não sei se era alguma coisa que colocavam no macarrão dos caras, mas verdade seja dita: os cineastas oriundos da Itália tinham um estilo inconfundível de produzir bons faroestes. Entre os filmes daquele período que certamente fazem qualquer cinéfilo abrir um sorriso de orelha a orelha, podemos destacar Três homens em conflito (de Sergio Leone), Era uma vez no Oeste (também do Leone) e o Django (do Sergio Corbucci).

O sucesso arrebatador de Django fez vários cineastas pegarem carona no filme. Assim, nos anos posteriores surgiram inúmeras produções que levavam o nome Django no título, sem necessariamente ter Franco Nero no elenco e, em alguns casos mais forçados, não tinha nem mesmo um personagem no filme com nome Django. Ou seja, o personagem interpretado por Nero fazia tilintar as caixas registradoras dos cineastas da época e, como eles não eram bobos nem nada, pegaram carona descaradamente no sucesso produzido por Corbucci. Algumas dessas produções até que tinham vários méritos, porém outras eram tão ruins que chegavam a causar brotoejas até mesmo no expectador menos exigente.

A quantidade de Djangos genéricos era enorme. Nesses filmes, a única coisa que eles tinham em comum com o personagem original era o nome. Em algumas aventuras, por exemplo, o Django era casado, em outras era noivo, em outras era apenas um pistoleiro e por aí vai. 

O caso chegou às beiras do surrealismo foi na Alemanha, quando em 1979, o filme O Caçador de Tubarões, dirigido por Enzo Castellari, recebeu a alcunha de Django e os Tubarões, apenas porque tinha Franco Nero como protagonista. Vale ressaltar que esse filme não é de faroeste nem aqui, nem na China, nem na Itália e muito menos na Alemanha, mas mesmo assim, a marca Django era muito forte.


A única continuação oficial do longa-metragem original de 1966 surgiu em 1987 e recebeu o nome de Django 2 - A Volta do Vingador. Mas infelizmente, para a maioria do público e da crítica especializada, esse longa-metragem, dirigido por Nelo Rossati e contando com Franco Nero de volta na pele do vingativo personagem. não chega nem na sola da bota do original.


Dentre os Djangos genéricos, um que merece destaque é Django, O Bastardo, tema dessa postagem.
Dirigido por um outro Sergio, que não era Leone e nem Corbucci, mas sim Garrone, esse longa-metragem foi lançado em 1969. O diretor Sergio Garrone era mais conhecido por filmes nazisploitation, que são as chamadas produções destrambelhadas que misturavam mulheres nuas, nazismo e violência, não necessariamente nessa mesma ordem.

Em Django, O Bastardo, quem protagoniza o anti-herói é o já falecido Anthony Steffen, que na verdade se chamava Antonio Luiz de Teffé, já que o cara era filho de brasileiros. Vale salientar que, além de atuar fazendo o papel principal, Stteffen também assina o roteiro e toma as rédeas da produção.


Na trama, um soldado da guerra civil (advinhem quem, Django, é claro) é traído por seus superiores que o deixam mais morto que vivo. Anos depois ele retorna para o famoso ajuste de contas.

Este é um dos primeiros trabalhos do técnico em efeitos especiais Paolo Ricci, que mais tarde se tornou o responsável pelas atrocidades em filmes nada fofinhos, tais como A Montanha dos Canibais e A Ilha dos Homens-Peixe, dirigido por Sergio Martino, e também do filme Paganini Horror, de Luigi Cozzi.

A Ilha dos Homens-Peixe

Aqui a direção de Sergio Garrone se destaca pelo uso alternado de planos raramente vistos nos faroestes feitos no país em forma de bota. O diretor utiliza muitos plongées e contra-plongées, além também de ângulos em primeira pessoa, com o objetivo de atingir um amplo nível de tensão nos espectadores.


Já a trilha sonora, composta por Vasco & Mancuso, cai como uma luva nas cenas do filme, como por exemplo, nos flashbacks da guerra.

De uma forma geral, Django, O Bastardo, não é um filme tão impactante quanto o primeiro, mas também não é tão “inglório” quanto os tantos outros que utilizam o nome do anti-herói dirigido por Corbucci.


Ainda não sei se o Django do Tarantino é realmente a última coca-cola do deserto, ou melhor, o último whisky do saloon, que muitos afirmam ser, mas desde já, o recente longa-metragem tem o seu valor em fazer boa parte dessa nova geração revisitar um gênero que muitos consideravam já com morte cerebral.

Mas o que me faz sentir revirar os intestinos é ler por aí comentários feitos por caras no auge dos seus “vinte aninhos” afirmarem que Leone e Corbucci recheavam as suas obras de clichês. Ora, se eles mesmos foram os estopins responsáveis pela gênese do western spaghetti, os apressados ainda ousam falar em clichê.  Que Deus os perdoe, pois Django certamente não.


Django O Bastardo (Django Il Bastardo)
Direção: Sergio Garrone
Duração: 107 minutos
Ano de produção: 1969
Gênero: Western
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5 comentários

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Anónimo
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20 de janeiro de 2013 às 00:25 delete

Essa do Django e os Tubarões os caras forçaram a barra. Só falta aquele filmes de disco do voador do Franco Nero receber o título de Django e os Alienígenas... hehehehehehe!

Gabriel

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20 de janeiro de 2013 às 01:02 delete

Um outro exemplo é o "Django atira primeiro", que foi lançado seis meses depois do filme produzido pelo Corbucci. Tanto que o nome do protagonista nem é Django, mas sim é Glenn Garvin. Ou seja, acho que os caras resolveram colocar Django no título enquanto o filme estava sendo editado.

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Marcel Ibaldo
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20 de janeiro de 2013 às 01:36 delete Este comentário foi removido pelo autor.
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Marcel Ibaldo
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20 de janeiro de 2013 às 01:50 delete

Isso é parte das lendas do cinema, e não raro ocorre algo similar pra usufruir da boa fama que os astros usufruem.
Outros exemplos que isso me lembrou foram (apesar de não ser igual ao exemplo do Django) o caso dos filmes do Jet Li, que tinham os títulos alterados quando exibidos em TV aberta por aqui, só pra todo mundo lembrar que, apesar dos títulos genéricos, eram filmes do astro de ação do momento (naquela época, pelo menos), e por causa disso havia sempre na programação filmes que nem "Jet Li Contra O Tempo".
Além desse, claro, tem os "sucessores" do Bruce Lee, que proliferaram depois da morte do cara.
Daí era comum encontrar em pôsteres de filmes artistas marciais com nomes que nem Bruce La, Bruce Le, e Bruce Li, pra aproveitar o embalo que o criador do Jitkyùndou proporcionou ao cinema de lutas mundo afora.

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Anónimo
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20 de janeiro de 2013 às 12:26 delete

No caso do Jet Li, lembro que o SBT, na cara dura, resolveu colocr o título de "Jet Li - O Justiceiro".

Thiago

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