Rua Cloverfield, 10 (2016)



Nessa enxurrada de spoilers, e trailers que contam o filme todo, uma pequena conquista do dia-a-dia é conseguir chegar na sessão de cinema e não saber nada (ou quase) a respeito do que vai acontecer na história.
Bastante raro, mesmo que o cara opte por não assistir os trailers.
Mas alguns roteiristas, cineastas, e demais envolvidos nesse "Rua Cloverfield, 10" possuem as manhas.
Dentre os caras creditados em alguma função de roteiro ou produção estão J. J. Abrams, Bryan Burk, Damien Chazzelle (do já clássico "Whiplash"), Drew Goddard (d"O Segredo da Cabana" e do seriado "Demolidor", da Netflix), e Matt Reeves (do found footage "Cloverfield: Monstro").
Além dos méritos vistos em exemplares da carreira de todos os envolvidos, o nome do Matt Reeves também é uma pista pros entendedores.



Mesmo que a ligação com "Cloverfield: Monstro" deva existir em algum ponto além do título, "Rua Cloverfield, 10" é muito mais filme em si mesmo do que uma sequência, ou spin-off.
Todas as possíveis ligações com o found-footage mencionado caem por terra tão logo as atuações assumem suas posições, e a personagem Michelle (Mary Elizabeth Winstead) sofre o acidente que a levará a uma situação de trincar os dentes em que a maior barreira não são nem paredes, ou portas de ferro, e sim paranoia e desconfiança.
Acontece que este não é um filme de monstros. Ou meio que é.
Só que trabalhando o lado psicológico dos personagens é obtida uma forma de monstruosidade muito mais interessante pra história.
Algo similar ao que Danny Boyle obteve em "Extermínio", no qual os zumbis não importam muito. Eles são um mero catalisador, que poderia ser substiuído por alguma intempérie do dia-a-dia levando os personagens a expor sua capacidade latente de cometer atrocidades.
Em "Rua Cloverfield, 10" o interessante é a dinâmica das 3 pessoas enclausuradas no abrigo construído pelo Howard (interpretação desossante do Jonh Goodman).
É ali que o enigmático anfitrião estabelece as regras pra um cada vez mais tenso cotidiano envolvendo além dele a já mencionada Michelle, e também o Emmett (John Gallagher Jr.).
Os três oscilam tentativas de confiar nos demais com momentos em que fica mais do que claro que tem algo errado, e que a situação vai ficar feia mais cedo ou mais tarde.




Isso tudo operando no campo da eficácia plena, e transpondo cada vez mais humanidade nos seus personagens, que em atuações coerentes com o contexto vão ficando cada vez mais reconhecíveis e familiares ao público, mesmo que os segredos deles, e o que reside atrás da porta que nunca deve ser aberta permaneçam.

Nessa inusitada abordagem, o diretor Dan Trachtenberg é notável em seu entendimento da trama e da forma de retratar o roteiro que requer que a claustrofobia chegue à plateia. Seja em quartos sem móveis que fazem com que pareçam menores ao não permitir onde se esconder, tubos de ventilação aparentando ficar menores a cada esquina, ou um diálogo à mesa em que a aproximação indica mais perigo a cada frase, o cineasta não perde chances de tornar cada vez mais envolvente uma trama que pros desavisados pode parecer uma sinopse de filme pra ignorar.
Afinal, trata-se de um longa-metragem em que 3 pessoas vão ficar conversando durante quase a metragem toda. E ainda que pareça fácil pensar que não, esse é um baita filme.
Muito disso também recai nos ombros principalmente do John Goodman e da Mary Elizabeth Winstead, ele apresentando dualidade e complexidade em um por vezes amigável e em outras brutal personagem, enquanto ela não se deixa levar pela facilidade de ser a mocinha em perigo resultando em uma protagonista forte e que não fica acuada mesmo quando não parecem haver alternativas de escape.
Bem editado, e de competente direção de fotografia, apesar de uma trilha sonora um tanto quanto óbvia e insistente, vez ou outra, "Rua Cloverfield, 10" ainda reserva um final surpreendente e que esbanja coerência com a proposta do projeto.


Ainda que lhe falte hype pra figurar em memes e demais fomentadores de opinião de público-médio, "Rua Cloverfield, 10" é com certeza dos mais instigantes suspenses dos últimos tempos. Uma pérola que põe a criatividade do roteiro em primeiro plano, e não as sacadas certas pra sucesso comercial que começam com vinculações a franquias, e terminam em CG e destruição do início ao fim.
Do mesmo modo que em "O Segredo da Cabana", quem vencer o pré-conceito forçado por Hollywood após ratear seguidas vezes com subgêneros de cinema fantástico vai encontrar um dos poucos filmes de monstro em que a palavra originalidade ainda não é mero adjetivo sarcástico.



Quanto vale:


Rua Cloverfield, 10. Recomendado para: complicar rotulação de gênero cinematográfico, e torcer que a franquia continue arriscando caminhos inusitados.

Rua Cloverfield, 10
(10 Cloverfield Lane)
Direção: Dan Trachtenberg
Duração: 104 minutos
Ano de produção: 2016
Gênero: Thriller/Suspense

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