Era uma vez a Cannon Films...


A década de 80 não serviu apenas para mostrar ao mundo os jogos de Atari e o chiclete Ploc. Além disso, nos famigerados anos 80 o mundo (pelo menos a parcela do planeta que se interessa por filmes fuleiros) viu o auge da Cannon Films.

Se o amigo leitor ainda não sabe quem foi a Cannon Films, vale afirmar que foi a empresa por trás do lançamento de filmes como Bradocck - O Super Comando, Falcão - O campeão dos campeões, Força Sinistra, Os Bárbaros, a franquia Desejo de Matar (com Charles Bronson) e até mesmo Mestres do Universo (com o Dolph Lundgren interpretando o He-Man). Ou seja, se a geração nascida nos anos 80 cresceu assistindo as pancadarias desenfreadas do Chuck Norris e a cara carrancuda do Stallone, uma das culpadas atende pelo nome de Cannon Films.


É óbvio que boa parte da crítica especializada torcia o nariz para o “teor artístico” da referida empresa, porém é admirável a quantia de filmes que eles despejavam no mercado. Apenas em 1986, por exemplo, a companhia lançou 43 filmes.

A Cannon foi fundada em 1967 por Dennis Friedland e Christopher C. Dewey, mas em 1979, a empresa foi comprada por dois primos israelenses: Menahem Golan e Yoram Globus. Graças as estratégias de marketing promovidas pela dupla, essa companhia, por um bom tempo, esteve no topo da indústria do entretenimento de baixo orçamento. Isso em uma época em que o youtube e outras facilidades atuais não eram imaginadas nem mesmo por um Steve Jobs com o cérebro entupido de alucinógenos.


Incialmente Menahem Golan e Yoram Globus investiram em filmes produzidos em Israel, mas em 1979 levaram a sua base de operações para os Estados Unidos. Uma dessas produções filmadas em Israel foi o filme adolescente Lemon Popsicle, lançado em 1978, mas que quatro anos depois foi refilmada nos EUA, pela própria Cannon, com o título de O último americano virgem. (Sério, esse filme era para o Cinema Em Casa do SBT o mesmo que o Lagoa Azul era para a Sessão da Tarde da Rede Globo).

Mas a Cannon não viva apenas de Chuck Norris, Stallone e Charles Bronson. Vez por outra a empresa investia em filmes “mais artísticos” baseados em obras de William Shakespeare que, invariavelmente, eram retumbantes fracassos de bilheteria. Ainda assim a empresa chegou a faturar um Oscar e um Globo de Ouro em 1987, com o filme holandês O Ataque, dirigido por Fons Rademakers.

Já no final dos anos 80, os primos empresários cometeram inúmeras mancadas que comprometeram a estabilidade financeira da empresa. Entre tantas presepadas, os caras pagaram um salário milionário para o Stallone protagonizar Falcão - O campeão dos campeões, mas infelizmente o filme foi um fiasco de bilheteria. Houve também o contrato para três produções com o diretor Tobe Hooper, que dirigiu três filmes que se facilitar nem mesmo os parentes próximos dele assistiram: Invasores de Marte, O Massacre da Serra Elétrica 2 e o injustiçado Força Sinistra (Lifeforce).

Além disso, veio outro prejuízo com o blockbuster (hã??) Superman 4 - Em busca da paz, que teve orçamento reduzido ainda durante a produção.


O período de vacas magérrimas (anoréxicas mesmo) era tão grave, que a falência da Cannon foi decretada em 1988. Nessa época os caras tiveram que cancelar a produção de Mestres do Universo 2 e um possível filme do Spider Man. Sabe-se que com o que sobrou dos figurinos e cenários desses dois filmes que nunca saíram do papel, surgiu o longa-metragem Cyborg, protagonizado por Van Damme e dirigido por Albert Pyun.


E pensar que hoje, ao que me parece, os estúdios endinheirados apenas não produzem um Spider Man por dia porque não querem.

A Cannon encerrou as atividades em 1993, mas deixou o seu legado na indústria do entretenimento de baixo orçamento. Atualmente nós até podemos achincalhar os famigerados filmes B e tentamos relegar tais produções ao limbo do esquecimento, mas basta algum nome do momento, como Quentin Tarantino, por exemplo, declarar que é influenciado por tais tranqueiras, que rapidamente surgem fóruns e conversas virtuais apontando as possíveis qualidades dessas obras. 

Por isso não se surpreenda se um dia, em uma mesa de bar com os amigos cinéfilos, um fã do Ingmar Bergman vociferar em alto e bom som que acha Desejo de Matar legalzinho.
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4 comentários

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Anónimo
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15 de janeiro de 2013 às 16:04 delete

A história de que o Spider Man seria filmado pela Cannon é verídica. Até o Tobe Hooper esteve envolvido com o projeto.

Aliás, lembro que no Brasil os filmes da Cannon eram distribuídos pela America Video.

Thiago

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15 de janeiro de 2013 às 16:39 delete

... E já que comentaram sobre a América Vídeo. Lembra dessa vinheta?

http://www.youtube.com/watch?v=1zbTP12fwYs

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The Crow
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14 de maio de 2014 às 12:37 delete

Só uma correção: com o filme "O Ataque", a Cannon Films não só chegou perto de um Oscar e um Globo de Ouro, como de fato ganhou os dois.

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3 de junho de 2014 às 08:19 delete

Valeu The Crow. Efetuarei a correção.

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