Resenha: Muzinga 1



Como mencionei no meu post sobre a loja virtual Mais Gibis, baixei a obra Muzinga 1 como teste. Dito isso, e lendo a mencionada HQ, nada mais justo do que resenhá-la aqui no blog. A publicação é obra de André Diniz (roteiro e arte) e Marcela Mannheimer (cores), e reúne toda as HQs publicadas no primeiro mês do site Muzinga. A página foi lançada recentemente, em novembro de 2013, e é atualizada todas às terças e quintas-feiras. Também é possível encontrar links para comprar - em um preço menor que o habitual - outras obras do André. 

É uma ideia muito interessante. André diz, em uma seção do site, que seu objetivo com este projeto era democratizar o acesso às HQs.
E por que digital, afinal de contas? Rebato a pergunta: e por que não? Em um país com tão poucas livrarias, onde o preço do livro ainda é muito caro e a distribuição nas diferentes regiões do país ainda é muito desigual, a publicação digital é quase uma utopia que se torna concreta. Os obstáculos são poucos e as possibilidades, inúmeras. "Os quadrinhos não podem ficar de fora dessa", afirma o autor.

Com esta ideia em mente, o site é feito para ser lido não só no computador, mas também em celulares e tablets, existindo inclusive um aplicativo para iPads e iPhones, disponibilizando o catálogo do site. Confesso que foi uma experiência interessante ler no navegador do smartphone, já que o site posiciona cada quadrinho das histórias verticalmente, um em cima do outro. Ótima sacada.



Pois bem, voltando para o tema do post. Este primeiro ebook, de 62 páginas, reúne as primeiras edições das três tiras do site: Muzinga, um homem de quase 200 anos em busca de respostas, Jordana, que conta a história de uma mãe e sua filha após a prisão do marido, e Zaqueu, um jovem com problemas familiares e crises existenciais. "Diversos personagens e HQs curtas: momentos que podem ser lidos isoladamente ou fora de ordem. Que, juntos, formam uma história maior, premiando os leitores assíduos. Algo bem diferente de tudo o que já fiz", como afirma André Diniz em seu site.

Falando sobre o que é comum a elas, a arte é muito agradável e combina com a proposta do projeto. Não há nada que busque diferenciar artisticamente as histórias dos três personagens, e todas compartilham as mesmas características: traços fortes, linhas retas e cores frias, sempre destacando os personagens ao invés dos cenários. Se foi uma medida intencional - para facilitar a visualização em telas de baixa qualidade/resolução - ou uma escolha estética, o resultado é muito satisfatório. É, com certeza, uma arte de personalidade.



Entre as três partes do volume, Muzinga é a que funciona melhor isoladamente. Apesar de ser o personagem com o maior número de histórias no volume (5), é o que menos passa a sensação de continuidade. Não é possível identificar traços de um enredo maior se desenvolvendo, apenas pistas de tópicos que podem ser retomados no futuro, como a culpa carregada pelo personagem, e o que veio a causá-la. Também senti falta de uma apresentação do protagonista, desenvolvendo melhor suas motivações e sua história.

Apesar de não ter gostado muito das três histórias sobre o Mestre *** (sim, este é o nome dele), as duas anteriores são excepcionais. Um bom começo para o volume, mas com a sensação de que peguei o bonde andando.

Após o homem de quase 200 anos, vêm quatro histórias de Jordana, uma mãe que muda-se para a casa de seu pai após a prisão de seu marido, tendo que recomeçar a vida ao lado de sua filha pequena, Eva. Aqui há um esforço maior em apresentar os personagens e os motivos que levaram a protagonista a chegar neste ponto da sua vida. Muito interessante a coragem em mostrar uma relação homossexual aos olhos de uma criança, que rende uma das melhores histórias do volume. Também destaque para o papel dos sonhos das personagens no enredo, uma alternativa muito interessante de demonstrar a visão de cada uma sobre a situação em que se encontram.

O volume termina com mais quatro histórias, dessa vez de Zaqueu, um jovem problemático que não se encaixa na realidade em que vive. Confesso que foi o personagem que mais me agradou, além de passar o sentimento de que há um enredo maior para ele. Ler os conflitos com seus pais desperta uma simpatia pelo protagonista, realçando a vontade de acompanhar suas histórias para ver o que acontece em seguida. Mais uma vez um tema polêmico é tratado, dessa vez a violência doméstica, contribuindo novamente para uma das melhores histórias do volume. 



Estas últimas histórias são o ponto alto de um bom volume, que começa parecendo apenas uma compilação, mas logo cresce e se revela um ótimo começo de projeto. André Diniz conseguiu criar três protagonistas interessantes, cheios de conteúdos e, tirando um pouco o primeiro, com motivações claras - abrindo um leque de possibilidades e direções para serem seguidas nas futuras histórias.

Se a ideia era gerar interesse suficiente para fidelizar leitores, então este volume foi um sucesso.

Muzinga 1 - Recomendado para: amantes de HQs digitais, histórias semanais e enredos meticulosamente planejados para ficarem na sua cabeça durante dias. 

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